Nos deparamos todos os dias com uma avalanche de informações nos nossos perfis das redes sociais digitais. O Twitter, através dos TTs, lista os 10 assuntos mais comentados. Até que ponto o conteúdo desses termos do top 10 agrega valor a uma marca? Quem faz a timeline, somos nós ou nossas conexões?

A professora e pesquisadora do PPGL e do curso de Comunicação Social da UCPel, Raquel Recuero, nos explica abaixo essas questões.

Raquel Recuero

Recentemente acompanhei pelo Twitter a movimentação de um grupo de fãs de uma cantora baiana para levar uma hashtag ao top 10. O movimento era em prol de um hospital de Salvador. Observei que muitas mensagens não faziam menção à conta bancaria para doação ao hospital e pensei logo, do que adianta tanto esforço se a informação realmente relevante não está circulando? Vale a pena mesmo apenas ser visto entre os top 10, mas sem ter um valor real agregado a isso?

Bom, eu não acho que não há valor agregado. Há muito valor agregado! Em primeiro lugar, há a difusão da marca, o que agrega visibilidade e popularidade para o hospital, mesmo ampliando o número de pessoas que conhece o assunto e que pode ir no site e conhecer a campanha. Até, pra mim, o natural seria que as pessoas buscassem uma fonte oficial e não fizessem doações só porque alguém escreveu um tweet. Em segundo lugar, teríamos que analisar os tweets e a difusão da informação na rede para verificar que outros valores agregados poderiam ser visíveis. A relevância vai além do retweet e do repasse, mas passa também pela visibilidade e pelos cliques.

Sempre vejo comentários do tipo “o Facebook não presta”, “as pessoas só publicam besteiras no Twitter” e respondo para essas pessoas que não é a plataforma, mas sim a rede de amigos que ela formou que precisa passar por um filtro. Por isso, tenho a impressão de que a maioria das pessoas ainda não utilizam as redes para agregar valor aos laços criados. Podemos dizer que isso ocorre porque elas não sabem gerar capital social através das redes sociais na internet?

Penso que sempre há capital social gerado pelas apropriações coletivas. Com certeza, tem a ver com o filtro. Nem toda a informação relevante pra alguém é relevante pra outro. Mas se as pessoas repassam é porque algo ali chama a atenção. Mesmo a “bobagem” tem valor social. Ela é fundamental para os laços sociais, sua criação e manutenção. De um modo geral, o espaço do social é fundamentalmente construído sobre o lúdico, o humor e outros elementos. Então: há valor sim. Se está sendo difundido é porque há um valor que é construído (talvez não por toda a rede) para o grupo.

Agora algumas perguntas rápidas mais relacionadas ao seu trabalho:

O que te levou a pesquisar sobre as redes sociais na internet a ponto de redigir uma tese de doutorado numa época em que existiam poucas referências da área no Brasil com um objeto de estudo tão inconstante? E de que forma acredita que a pesquisa acadêmica pode contribuir para o mercado?

Eu, na verdade, comecei a pesquisar os grupos sociais na rede ainda em 1998. Foi a partir do meu interesse nesse universo que passei a trabalhar também com as redes sociais como metáfora para esses grupos. Hoje em dia estamos, pela primeira vez, deparados com uma grande quantidade de dados a respeito do universo social, que nunca tivemos antes. É possível acompanhar conversações, idéias e mesmo ações coletivas desde o seu início porque a Internet permite que essas informações sejam registradas. Isso é muito revolucionário, pois é possível estudar a influência das pessoas umas nas outras, dos boatos, das modas, das ações coletivas como protestos e mesmo, das opiniões. É um campo muito rico.

Saiba mais: 

Raquel Recuero  é autora do livro “Redes Sociais na Internet” e co-autora do “Métodos de Pesquisas para Internet”.

Visite o site: http://www.raquelrecuero.com/

  • Jonatas Oliveira

    Gostei da entrevista! Eu já usei muito os textos da Recuero em meus trabalhos acadêmicos. Sempre muito ricos e esclarecedores.
    Vejo como uma prática fundamental a integração do conhecimento teórico às ações de marketing digital que executamos no dia a dia de nossas profissões.
    Forte abraço e parabéns pela entrevista.